*Não sei quantas almas tenho*

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Fernando Pessoa

*Não sei quantas almas tenho.*
*Cada momento mudei.*
*Continuamente me estranho.*
*Nunca me vi nem acabei.*
*De tanto ser, só tenho alma.*
*Quem tem alma não tem calma.*
*Quem vê é só o que vê,*
*Quem sente não é quem é,*

*Atento ao que sou e vejo,*
*Torno-me eles e não eu.*
*Cada meu sonho ou desejo*
*É do que nasce e não meu.*
*Sou minha própria paisagem;*
*Assisto à minha passagem,*
*Diverso, móbil e só,*
*Não sei sentir-me onde estou.*

*Por isso, alheio, vou lendo*
*Como páginas, meu ser.*
*O que segue não prevendo,*
*O que passou a esquecer.*
*Noto à margem do que li*
*O que julguei que senti.*
*Releio e digo : “Fui eu ?”*
*Deus sabe, porque o escreveu.*

Poema recebido em 04/09/2005

“Acabo de receber e repasso, com um beijo.”

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