A leitura do mundo

Publiquei este texto  no antigo certezas provisórias há mais de 6 anos atrás. Ainda não era mãe. Hoje, me emociona ainda mais esta história. Vou republicá-la como participação da Promoção Coragem de Mãe do site-blog What Mommy Needs.

Boa leitura!

Dedicado ao mestre Paulo Freire

12 de fevereiro de 2004

Há um mês atrás comecei a ler “Pedagogia da Pergunta” de Paulo Freire e Antonio Faundez. Hoje, 12 de fevereiro, cheguei ao fim deste livro intrigante e revelador, no ônibus, voltando de Santo André (UniABC) rumo ao meu lar, meu banho e minha cama em Ermelino Matarazzo. Não costumo ler no ônibus, me enjoa (biologicamente, claro!), mas o fim do livro me prendeu. Enfim, Paulo fecha o livro com grande esperança no processo então vivido na Nicarágua, que segundo ele era um grande exemplo do que eles chamaram no livro de “pedagogia da pergunta”. Fechei o livro quase tão emocionada quanto no dia em que terminei de ler “A vida em vermelho”. Abri novamente, pois me toquei que não sabia nada sobre o que houve na Nicarágua após aquela data. E qual era a data? Fui conferir. 1985.
Permaneci enredada por pensamentos sobre o livro, cheia de esperança também e feliz…
O livro foi escrito por meio de um diálogo entre os dois autores. Em muito se parece com as minhas últimas conversas online, um formato que revela muito mais que o convencional sobre estes dois homens e suas realizações no mundo(contém relatos sobre atuações na américa latina, na áfrica, na nicarágua etc).
De repente, todos estes pensamentos foram dispersados por um esboço de voz. Desviei meu olhar para o lado. Uma mulher. Mulher brasileira mesmo, bonita pela força no olhar e não pela estética vigente. Ser humano inteiro que é. Lembrei que já havíamos trocado palavras anteriormente, logo que me assentei ao lado dela, sobre o motorista e a velocidade do ônibus. Silêncio. Voltei meu olhar ao livro e o silêncio se desfez:
_Desculpa atrapalhar, mas vocês estudam tudo isso? – questionou a mulher.
Sorri e respondi que sim. Emendei que este livro tinha sido muito bom, muito gostoso de ler. Que eu aprendi muito com ele. Que li em um mês e que isso não era comum. Sempre demoro mais tempo. Ela sorria sobre meu incontrolável falatório e quando enfim o abandonei, ela ainda sorrindo disse:
_Te invejo…Queria ler assim…
_Você não gosta de ler? – perguntei retribuindo os sorrisos.
A mulher então transforma a fala novamente num esboço, como se fosse uma defesa e diz:
_ Não é que não gosto…
_Tem dificuldades – atropelei-a.
_É – ela então retoma o tom de voz- mas um dia quero ver meus filhos assim, como você.
Ela também comentou que o problema teve origem na infância, na escola.
Sorri e disse que ela não era a culpada. Comentei rapidamente sobre os problemas no sistema de escolas,  a precariedade do ensino. Ela compreendia e dialogava comigo. Sobre os problemas que havia nas escolas na época de sua (nossa) infância e os problemas da educação agora, para os filhos dela. Ela lia o mundo.
Este diálogo, tão importante quanto aqueles que tinha terminado de ler no livro, tomou dimensão dentro de mim. Lembrei das palavras, ainda quentinhas em minha mente, do mestre Paulo Freire:
“A leitura do mundo precede a leitura da palavra”.
Foi mágico, quando para ilustrar um comentário, a mulher leu, insegura, a primeira palavra do título do livro que ainda estava sobre meu colo “Por…”
_É “por” que está escrito aí, não é? -optou por confirmar a mulher.
Confirmei com um sorriso. E expliquei a ela que no livro que terminara de ler com o testemunho dela estava escrito o mesmo que estávamos conversando.
Em determinado momento, falei com ela sobre minhas atividades na educação e ela com muita alegria:
_QUE LINDA! ACHO LINDA!
Pensei naqueles (principalmente colegas de docência) que esqueceram disso. Da beleza de nossa missão. Ela não esquecera!
Fiquei hipnotizada pelo momento e esta foi a causa da frustração de não ter estendido mais nossa relação. Nem ao menos perguntei seu nome. Me empolguei tanto que nem imaginei que ela não me acompanharia por toda aquela uma hora de trajeto. Deixei o papo fluir:
_Quantos filhos você tem?
_Oito – ela respondeu.
_Que? – achei que havia entendido errado.
_Oito – repetiu a mulher.
_Nossa! -exclamei e sorri- é muita força!
_É, tá vendo aqui -ela me mostrou suas mãos- toda estourada de tanto trabalho, mas um dia vou ver meus filhos assim, como você.
Realmente é muita força. Uma mulher que cuida de seus 8 filhos, com idades entre 1 e 15 anos sozinha. O pai? Foi embora com sua melhor amiga. Mas isso não importa. Importa ver seus filhos lendo e, claro, tudo o que isso implica. Ela lê o mundo. Entende isso como crescimento.
O ônibus cruzava o limite urbano entre Santo André e São Paulo e a mulher se levantou. Desejei-lhe boa sorte. E fiquei. Feliz e frustrada.
Mais ainda, impressionada. Parecia que o mestre Paulo Freire, ao me ver com meus pensamentos ao final da leitura havia se preocupado com o que foi sua eterna preocupação “o concreto”. “Ler foi muito bom, filha…” (parece que podia mesmo ouví-lo)…”Mas veja, sinta e viva isso que agora faz parte de você, só assim tantas palavras vão fazer sentido.” E assim foi.

imagem: sagrado feminino

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